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Hermínio Bello de Carvalho fala sobre a playlist Choro da ABMI

Para comemorar o Dia Nacional do Choro (23 de abril) a ABMI, em parceria com o Itamaratry, praparou a playlist “Choro” com clássicos interpretados por alguns dos grandes mestres e também novos nomes.

 

O compositor, pesquisador e produtor Hermínio Bello de Carvalho escreveu um texto falando sobre a playlist e sua relação com o Choro:

***

            Eu gosto muito de lembrar de coisas que se passaram na minha vida em torno desse gênero musical tão brasileiro, que é o Choro ou Chorinho, objeto dessa playlist, porque ele entrou na minha vida muito cedo. Basicamente instrumental, o choro com o passar do tempo, entretanto, também ganhou versos; eu mesmo já fiz três letras para choros de Jacob do Bandolim que são o “Noites Cariocas”, o “Doce de Coco” e “Benzinho “.  Também tive, sobretudo, a honra de ter como parceiro nada mais nada menos que Alfredo da Rocha Viana Junior, o Pixinguinha. Desde criança, eu muito voltado pra música, muita coisa entrava pelo meu ouvido, eu era doido por rádio, eu ouvia muito programa de rádio, eu vivia atrás de música. Acrescente-se a isso que eu também estudava em uma escola super musical, em uma época em que ainda tínhamos o ensino do canto orfeônico – eu até lembrei o nome de minha professora, dona Maria Lopes da Silveira – o que, por exemplo, permitiu que o som do choro Carinhoso, de Pixinguinha, entrasse na minha vida muito cedo, choro lindíssimo! E eu, menino, longe de imaginar que muitos anos depois acabaria sendo parceiro dele. Eu fui uma vez procurado pelo Pixinga, que estava no bar Gouveia, onde ele tinha um “escritório” e ia beber seu uisquinho de segunda a sexta-feira. Eu estava no trabalho, em uma empresa de navegação, quando recebi um telefonema dele perguntando se eu não poderia ir encontrá-lo lá no bar. Apesar das obrigações que eu tinha na empresa, claro que fui encontrar com ele e aí ele revelou o assunto da conversa: que ele havia sido convidado para se inscrever em um festival da canção, mas que não estava muito motivado a participar. Abro um parêntese aqui para registrar que Vinícius de Moraes havia se tornado parceiro dele, recentemente, no choro “Lamentos”. A verdade é que ele continuou a conversa me perguntando se eu iria com ele e eu interpretei como se ele estivesse me convidando a acompanhá-lo em uma conversa com a produção do evento, quando, na verdade, ele estava era me convidando para ser parceiro dele na canção que seria inscrita no festival. E assim nasceu nossa parceria no choro “Fala Baixinho” que acabou sendo a semente das outras letras que eu viria a colocar em outros choros do Jacob do Bandolim. Jacob faleceu em 13/08/1989, data que não esqueço nunca, por ter marcado uma grande dor que eu senti. Me refiro à perda de uma pessoa maravilhosa com quem eu compartilhei muito o ambiente do choro, por frequentar os saraus famosos que ele, o Jacob, organizava na casa dele em Jacarepaguá. Era uma delícia aquele ritual do silêncio absoluto nos momentos em que ele tocava com seu grupo de músicos maravilhosos, o Dino, o Meira e o Cesar Faria, pai do Paulinho da Viola.

Hoje o choro me acompanha através dos jovens músicos aprendizes da Escola Portátil de Música que fazem reuniões musicais deliciosas, infelizmente suspensas no momento por causa dessa pandemia do coronavírus. São dezenas de jovens estudantes de música que se reúnem para tocar nos dias de sábado nos terrenos arborizados da UniRio ou na Casa do Choro. Assistir a essa garotada impregnar-nos de música é uma demonstração da importância do choro, pela sua qualidade, pelas possibilidades que ele tem, que ele é. Por exemplo, você pode ouvir um choro e a partir dele ter uma aula até de cinema: ouça a versão de “Um a Zero”, do Pixinguinha, tocado pelo mesmo e Benedito Lacerda, que você entenderá o que eu quero dizer. É um choro tão genial que é cinético, cinematográfico, você vê os dribles, o momento do gol. Algum tempo atrás o compositor Nelson Ângelo fez uma letra para esse choro, narrando uma partida de futebol, que bem demonstra o que eu estou falando.

Por outro lado, o Jacob do Bandolim tocando reinventava a música a cada execução, jamais tocava igual. Eu presenciei, por exemplo, Jacob tocando “Chega de Saudade”, do Tom e Vinícius, em versões que duravam mais de dez minutos, improviso atrás de improviso o que, aliás, pode ser constatado no registro de um espetáculo que eu dirigi em 1968, com Jacob, Elizeth Cardoso, uma cantora descoberta pelo próprio Jacob, mais os grupos Época de Ouro e Zimbo Trio. Esse show foi realizado no Teatro João Caetano em benefício do Museu da Imagem e do Som. Há um momento do Jacob com o Zimbo Trio em que aflora ali um homem em quem a música transbordava, a música não cabia dentro dele e que coisa linda que são os improvisos que ele faz, o que mostra bem a parecença que o choro tem com o Jazz, pura reinvenção, puro improviso. Naquela ocasião, eu testemunhei isso, eles nem chegaram a ensaiar, só definiram o tom e na hora foi aquela coisa linda!

O choro é celebrado no dia 23 de abril porque era o dia do aniversário de Pixinguinha, dia também de São Jorge Guerreiro e está aí desde 1870. Até agora, em 2021, continua pleno, novidadeiro. Ouvir um álbum do pessoal da Camerata Carioca, com arranjos do Radamés Gnatalli, ou do Radamés tocando com o Rafael Rabelo, e outras coisas mais contemporâneas, é uma experiência linda, inclusive para se perceber a arquitetura do choro, geralmente de três partes bem definidas. Você vai escutando e se deixando levar pela música e daqui a pouco você se sente tocando o choro, se sente tocado pelo choro e o choro começa a chorar dentro de você.

Herminio Bello de Carvalho

abril/2021

 

Ouça aqui:

 

Artistas independentes são 53% nas paradas de sucesso do streaming, revela pesquisa da ABMI

ESTUDO TRAZ DADOS DE PLATAFORMAS DIGITAIS, AVALIA TENDÊNCIAS E IDENTIFICA DESAFIOS PARA O SETOR

 

DESTAQUES:

  • 53,5% dos artistas que frequentaram o TOP 200 do Spotify são independentes
  • 15% da receita das empresas pesquisadas vem de fora do Brasil
  • 50% das receitas vêm do ambiente digital
  • O Amazon Prime Music já passou a Deezer em número de assinantes e perde para o Spotify, que detém 61% dos assinantes
  • 89% dos entrevistados estão otimistas em relação ao futuro
  • As distribuidoras tiveram efeitos econômicos positivos em função da pandemia

 

A Associação Brasileira da Música Independente (ABMI) acaba de apresentar os resultados da Pesquisa do Mercado Brasileiro da Música Independente, que mapeia um setor em franca expansão. As principais informações foram apresentadas ao vivo no evento online GiRo Digital ABMI, nesta quinta-feira, 15 de outubro. Os dados foram coletados em duas frentes: uma avaliação dos dados das principais plataformas de streaming referentes a 2019 e parte de 2020 e entrevistas em profundidade com 60 empresas – 50 associadas e 10 não-associadas convidadas – entre editoras, produtoras de evento, produtoras audiovisuais e estúdios.

 

“Estamos felizes em poder compartilhar os resultados da nossa pesquisa, que revela dados importantes para entendermos melhor a dinâmica do mercado. Assim, podemos ser mais eficazes ao orientar os profissionais da indústria. Os independentes estão ganhando cada vez mais espaço e entram na disputa pelo topo das paradas de sucesso. A democratização proporcionada pelas plataformas digitais de áudio tem sido muito benéfica para produtores e artistas independentes”, afirma Carlos Mills, Presidente da ABMI.

 

Os resultados apontam que 50% do faturamento das empresas pesquisadas vêm das plataformas digitais. “Ou seja, elas são fundamentais para entendermos a dinâmica da música independente, as oportunidades que se abrem a partir da nova onda de digitalização do ambiente e os desafios que vamos enfrentar. Especialmente agora num momento pós-pandêmico em que o consumo da música digital se ampliou para um patamar que deve se manter muito alto,” aposta Leo Morel, Coordenador da pesquisa.

 

A análise identificou que gravadoras, distribuidoras e MEIs enfrentam desafios distintos no momento atual. Para as gravadoras, é preciso focar na adaptação ao mercado cada vez mais digital. Já as distribuidoras digitais – que mediam a relação entre artistas e plataformas – devem focar os esforços na ampliação e manutenção do catálogo e na atualização constante dos cadastros. Já os microempreendedores individuais devem se concentrar em viabilizar a geração de renda ampliando as formas de entrada dos recursos.

 

Os resultados da pesquisa sobre as plataformas de streaming apontam, entre outras informações, a impressionante participação de artistas independentes no TOP 200 do Spotify ao longo de 2019: 53,5%. O número levantado pela ABMI inclui artistas ligados a gravadoras e selos independentes, além de auto-produzidos, com base na Propriedade do Fonograma e não dos canais de distribuição.

 

“Durante a realização do estudo, focamos em entender as necessidades do mercado para poder trazer dados que nos façam compreender melhor o setor da música independente e que nos ajudem a enxergá-lo com mais clareza. A partir de tudo o que extraímos, evidenciamos a clara expansão dos independentes e detectamos os possíveis desafios que as empresas podem enfrentar”, completa Morel.

 

Ainda de acordo com a ABMI, a Amazon Music já é o segundo serviço de streaming com maior número de assinantes no Brasil. A plataforma possui 12% de participação de mercado, ficando atrás apenas do Spotify, que detém 61% dos assinantes. A Deezer vem em terceiro lugar, com 9%.

 

A pesquisa completa será disponibilizada nos próximos dias. O estudo foi realizado em duas frentes. As empresas internacionais Chartmetric e Counterpoint foram responsáveis pelo levantamento de dados quantitativos. E a brasileira LV Pesquisa realizou a pesquisa junto às empresas. A iniciativa tem o apoio da WIN e do MERLIN.

 

Sobre a ABMI

 

Fundada em 2002, a Associação Brasileira da Música Independente é uma entidade sem fins lucrativos, que atua como a voz das empresas brasileiras no mercado fonográfico. Com o objetivo de promover maior a integração do mercado brasileiro ao mercado mundial de música gravada, sua missão é organizar, capacitar e desenvolver os produtores de conteúdo criativo musical, possibilitando melhores resultados financeiros, oportunidades de negócios e o seu contínuo aprimoramento. A ABMI tem assento na WIN – Worldwide Independent Network – associação mundial de gravadoras e associações independentes, com mais de 800 associados em todo o mundo. Além da WIN, a ABMI participa ativamente da MERLIN, que vem se revelando o mais importante articulador de negócios da música em ambientes digitais em todo o mundo. A instituição é a maior e mais importante articuladora política do setor, tendo comandado o movimento de imunidade tributária da música brasileira através da PEC 123/2011, mais conhecida como a PEC da Música. Além disso, a ABMI trabalha para reduzir o déficit de inclusão digital de seus representados e para criar a estrutura necessária para recolher e administrar os novos direitos sobre licenças decorrentes de usos digitais para as gravadoras e artistas nacionais. Os benefícios da gestão coletiva da ABMI serão percebidos inicialmente por seus associados e, na sequência, estendidos ao setor como um todo, contribuindo assim para a sua organização, consolidação e fortalecimento comercial.

EUA comemoram o terceiro ano consecutivo de crescimento de dois dígitos na música

Não saberemos os números exatos sobre como 2018 foi para a indústria da música mundial até o próximo mês, quando a IFPI publica seu relatório anual. Mas com base no maior mercado do mundo, os EUA, será outro forte conjunto de resultados. A RIAA revelou ontem que as receitas de varejo dos EUA para música gravada cresceram 12%, US $ 9,8 bilhões em 2018 – o terceiro ano consecutivo de crescimento de dois dígitos.

O streaming agora representa 75% desse mercado: US $ 7,4 bilhões de receita nos EUA no ano passado, um aumento de 30% em relação a 2017. Isso incluiu US $ 5,4 bilhões de receita de assinatura – 32% – enquanto o número de assinaturas de música paga cresceu 42% para 50,2 milhões de pessoas. O que significa que o crescimento no número de assinantes é maior do que as receitas reais de assinaturas (uma diferença maior se você retirar os US $ 747 milhões de receita de subscrições promocionais, já que esses ouvintes não estão incluídos nos 50 milhões de assinantes.)

Sim, há uma questão de abismo de valores sendo levantada. A RIAA disse que as receitas de serviços suportados por anúncios on-demand (como o nível gratuito do Spotify, o YouTube etc) aumentaram em 15%, para US $ 760 milhões. “Esses tipos de serviços transmitiram mais de 400 bilhões de músicas para ouvintes nos Estados Unidos, mais de um terço de um total estimado de 1,2 trilhão de fluxos, mas contribuíram com apenas 8% para a receita total do ano”, disse a RIAA.

Outras tendências: as vendas de CDs caíram 34%, para US $ 698 milhões, enquanto as vendas de vinil cresceram 8%, para US $ 419 milhões. Estamos realmente enfrentando a perspectiva de ultrapassar o CD novamente nos EUA, possivelmente ainda este ano. As vendas de download caíram 26%, para pouco mais de US $ 1 bilhão. O presidente e CEO da RIAA, Mitch Glazier, optou por se concentrar no crescimento das assinaturas de streaming. “Cinquenta milhões de assinaturas revelam o amor inigualável dos fãs pela música e o modo como ela molda nossas identidades e cultura – e mostra uma indústria que abraçou o futuro e encontrou um caminho saudável pela frente na economia digital”.

A RIAA não divulga serviços de streaming individuais, mas a empresa de consultoria MusicWatch divulgou ontem alguns números de participação de mercado das plataformas no âmbito da audição de música nos EUA, no último trimestre de 2018. O YouTube ainda está no topo, com 28% de “””aggregate listening hours”””  27% acima do ano anterior. No entanto, o Spotify está no calço,  aumentando de 20% para 24% de audição no mesmo período. Pandora (20%), Apple Music (6%) e Amazon Music (3%) são os outros serviços listados.

Isso é para todos os ouvintes – gratuitos e pagos. O MusicWatch diz que, quando apenas os serviços de assinatura são considerados, o Spotify tinha uma participação de 39% nos EUA no quarto trimestre de 2018, à frente da Apple Music (17%), Amazon Music (16%) e Pandora (10%). A empresa acrescentou que, de acordo com seus dados, a média de horas semanais de audição de um usuário do Spotify Premium cresceu de 4,9 horas no 4º trimestre de 2017 para 6,8 horas no 4º trimestre de 2018. E destaca que assinantes do Spotify Premium gastam 6 horas por semana ouvindo podcasts… ”

 
Fonte: https://musically.com/2019/03/01/us-enjoyed-third-straight-year-of-double-digit-music-growth/

Music Ally – Renovação de assinatura para associados

Muitos de vocês, associados da ABMI, estão recebendo gratuitamente os serviços de informação da Music Ally há 1 ano, por meio da cortesia e apoio do Spotify e da FUGA (associada ABMI).

A Music Ally tem o prazer de anunciar que a Spotify e a FUGA decidiram estender o apoio por mais 1 ano para que você continue a receber os informativos gratuitamente.

“A FUGA está satisfeita em apoiar o fornecimento do excelente serviço de informações comerciais da Music Ally a todos os funcionários de selos independentes de todo o mundo por mais um ano. O serviço teve uma excelente resposta. A FUGA continua vendo o benefício de ter essas informações disponíveis para ajudar as gravadoras independentes a acompanhar todos os desenvolvimentos digitais mais recentes.”

Pieter Van Rijn | CEO da FUGA

“A Spotify tem orgulho de fazer parceria com todas as gravadoras e trabalha arduamente para ajudá-las a servir melhor seus artistas. Temos o prazer de oferecer as principais notícias e insights da Music Ally para todos os selos independentes do mundo, capacitando-os com o conhecimento necessário para ajudar a construir tanto os negócios quanto as carreiras de seus artistas.”

Chris Stoneman | Diretor de serviços de selos independentes do Spotify UK

Lembrando que a ABMI, como parte da Worldwide Independent Network (WIN), traz esse grande benefício para seus associados.

O serviço completo de assinatura da Music Ally é oferecido gratuitamente para selos independentes em todo o mundo, com patrocínio da Spotify e da FUGA.

O serviço Music Ally inclui:
– Um boletim diário de notícias por e-mail.
– Relatórios regulares em PDF, incluindo os relatórios de marketing digital da Sandbox.
– Descontos para todos os eventos da Music Ally.

Uma única assinatura anual individual da Music Ally custaria em torno de £ 399. Mas os membros dos selos e gravadoras independentes – e todos os seus funcionários – têm direito a receber gratuitamente o serviço completo por um ano. Você NÃO precisa fornecer detalhes do cartão de crédito e pode se descadastrar a qualquer momento caso esteja insatisfeito com o serviço.
Atenção: essa oferta é apenas para selos e gravadoras independentes associadas à ABMI.

Solicite o link do seu acesso gratuito no abmi@abmi.com.br.

Music Ally é uma publicação de primeira linha para qualquer profissional da indústria, independentemente do tempo de mercado ou segmento. Nós encorajamos você a aproveitar ao máximo essa grande oportunidade.

Plano da Spotify para vencer a Apple: conquistar assinantes no resto do mundo.

Daniel Ek

Investidores esperam que o serviço de streaming reproduza o sucesso da América Latina em outros mercados mais difíceis.

Há três anos, Danny Ocean, um venezuelano alegre de cabelo despenteado e uma voz sedosa e aveludada, se mudou para Miami para começar uma vida nova. Ele descolou um emprego numa pizzaria, mas sentiu muita falta da namorada que havia deixado pra trás. Como um presente de dia dos namorados, ele escreveu uma música em seu quarto para ela, cantando melancolicamente sobre uma levada de sintetizadores. Ele fez upload da música que entitulou de “Me Rehúso” no Youtube e no Spotify. A música começou a puxar para cima os gráficos de viralização na Colombia, Chile e Peru, o que chamou atenção da curadoria da Spotify – os funcionários que monitoram minuto a minuto os dados de audição. Eles unanimemente decidiram adicionar a canção a suas playlists, como “Verano Forever”, onde usuários do Spotify começaram a circulá-lá também. Semana a semana, Spotify foi incluindo a música em novas playlists, cada uma com mais seguidores, até que dois meses depois a música já tinha conquistado o “santo graal” – “Viva Latino!” – que foi o golpe final para sua catapulta ao estrelato. Em menos de um ano e com apenas uma canção lançada,  Ocean estabeleceu uma guerra de negociação com as maiores gravadoras do mundo, antes mesmo de assinar um excelente contrato de gravação com a Warner Music. O skatista magricela de 26 anos rapidamente se tornou o novo rei do reggaeton, o gênero popular que combina música latina com hip-hop.

Contos de fada como este tem circulado na internet por um bom tempo. Justin Bieber foi descoberto no Youtube há uma década. Mas num negócio atualmente dominado somente pelo streaming, a América Latina vive um momento especial. Em 2017, a receita da música cresceu na região mais  do que em qualquer outro lugar, com uma população jovem e esperta consumindo streaming aos bilhões, levando a Rolling Stone a declarar que foi o ano da decolagem do pop latino americano. Além dos “Danny Oceans” do mundo, poucos poderiam estar mais felizes quanto à sinergia entre streaming de música e a América Latina do que o Spotify, cujo preço das ações e, potencialmente o futuro, dependem de repetir o mesmo truque em novos mercados.

Spotify precisa continuar adicionando assinantes para deixar Wall Street feliz enquanto batalha contra a Apple, uma das companhias mais ricas do mundo, na disputa de como o mundo ouve música. Há um montante finito de vinte e poucos afluentes nas cidades do oeste que pagariam US 10$ por seus serviços. Entretanto, após crescer feito mola na Europa e nos US, investidores estão apostando que Spotify pode obter centenas de milhões de assinantes em regiões que a companhia sueca grosseiramente chama de “resto do mundo”.  Até o momento, a América Latina é o único mercado emergente onde o modelo do Spotify funcionou de forma expressiva – um fenômeno que surpreendeu os executivos de mais alto nível há seis anos atrás, quando entrou no México.  Spotify se tornou o principal serviço pago de streaming na América Latina com mínimo esforço. Até hoje menos de uma dúzia de funcionários trabalhando num escritório em Miami tocam a operação de todo continente. “Ninguém nunca esperou que fosse assim, e nem tínhamos os recursos para isso. O Chile é agora o mercado que mais cresce, e nunca sequer enviamos um funcionário até lá”, disse Will Page, Diretor de Economia da Spotify, que espera que o Brasil e o México superem UK e Alemanha em assinaturas. Entusiasmado com os resultados da América Latina, o fundador Daniel Ek está convencido que pode replicar o modelo ao redor do mundo. Ao palestrar para investidores sobre Spotify antes de tornar-se pública em Abril, Ek destacou os bilhões de smartphones ao redor do mundo que ainda não usam seu app de música. “Estamos trabalhando para lançar o serviço em alguns dos maiores mercados do mundo, lugares como Índia, Rússia e África”, ele disse. Spotify já fez avanços: em Novembro debutou no Oriente Médio, enquanto no ano passado entrou na África do Sul, Israel, Vietnam e Romênia. Navegando pelo app do Spotify, usuários agora veem gêneros como “Arab” e “Afro”, próximo a “Party” e “Sleep”.

Wall Street comprou a idéia, com um debut bem sucedido no mercado de ações e previsões otimistas para o futuro. Ao redor do mundo, excluindo a China, estimados 6% das pessoas com smartphones com dispositivos de pagamento pagam pelo Spotify, e Morgan Stanley prevê que este percentual dobre nos próximos cinco anos para 220 milhões de assinantes. Em 2023, o banco espera que Spotify tenha 53 milhões de assinantes na Ásia, Oriente Médio e África, comparados com apenas 11 milhões em 2018.  Mas esse entusiasmo inicial tem esfriado e dúvidas começam a surgir. Após subir nos primeiros três meses como uma empresa pública, as ações da Spotify foram enevoadas por um conjunto de ações de tecnologia, caindo abaixo do seu valor de abertura no NYSE. “Investidores ficaram incrivelmente nervosos”, disseram os analistas da Morgan Stanley em Outubro, citando a falta de novos mercados (Índia e Russia). Nos EUA, o maior mercado de música, Apple recentemente tirou a Spotify do trono ao se tornar o serviço de streaming pago mais popular. A Spotify atingiu um marco na aceleração desse quesito quanto a domínio global: India. O país se tornou uma moeda de troca na competição entre a empresa de tecnologia e a indústria de música. Após meses de conversa, as grandes gravadoras que controlam o negócio da música ainda não deram ao Spotify a luz verde para licenciar suas músicas no país, de acordo com pessoas familiarizadas com as negociações. “Agora eles são uma empresa pública e realmente precisam crescer”, diz um executivo sênior de uma grande gravadora. “É nossa grande oportunidade de alavancagem”. Quando consultado sobre o que fizeram para conquistar a América Latina, os executivos do Spotify encolheram os ombros: “Nós de fato não fizemos muita coisa”, disse Page. “Quando Spotify entrou no México há seis anos, era apenas uma startup inicial, com um departamento precário de RH”, ele disse. “Tínhamos uma mulher, sem escritório, voando pelo continente, literalmente. Nós estávamos improvisando”. Sendo economista de dia e DJ à noite, Page dá sua interpretação do que aconteceu. Primeiro, o licenciamento era fácil porque a América Latina ainda estava sob a ameaça da pirataria, o que significa que as gravadoras estavam dispostas a fazerem acordos. Nos EUA, a loja da iTunes tinha ajudado a combater a pirataria, mas no México a máfia da pirataria ainda estava prosperando. Executivos da música em lugares como Canadá e Japão hesitavam em confiar no Spotify, resultando em anos de negociações meticulosas para lançar nesses países.

Porém no México “nós literalmente aceitamos a grana”, diz um dos executivos mexicanos que esteve envolvido nas conversas sobre licenciamento à época. “Naquele ponto nós estávamos muito felizes conseguindo US 50.000 num contrato”, diz o executivo. “Então de repente uma empresa nos oferece US 2Milhões, e nós não tínhamos nenhuma experiência com Spotify até então, e aceitamos o dinheiro”.

Isso estabelecido, Spotify lançou no México em 2013, e no Brasil um ano depois. Estava disponível em toda América Latina antes de entrar no Canadá. A empresa encontrou bons ventos em sua navegação: metade da população da América Latina tem menos de 30 anos, o que é o público alvo exato do Spotify; a classe média estava crescendo, então havia mais gente capaz de pagar a tarifa; e o mercado latino é orientado a rádio, o que conduziu muito bem ao estilo do Spotify de inundar usuários com playlists e músicas sugeridas. Mas principalmente, executivos e analistas atribuem o sucesso ao boca a boca e aos patrocínios. “Eles estabeleceram a marca Spotify como uma marca premium a se desejarr”, diz Mark Mulligan, um analista da Midia Research. “Esse crescimento se deve muito a isso… fizeram algum marketing, mas não tão agressivo”. Spotify baixou os preços na região: a assinatura no México custa 99 pesos, cerca de US 5$/mês, metade da tarifa nos EUA.  Enquanto muitos jovens mexicanos relutavam a pagar US 15 a 20 por um CD, estavam dispostos a pagar essa taxa para ter acesso a 30 milhões de músicas. Os resultados foram tanto rápidos quanto dramáticos. “A cada trimestre ao receber os relatórios da Spotify, a base de assinantes crescia assustadoramente”, diz Kervin Dockendorf, que trabalhou para uma editora no México na mesma época. “Deezer já estava lá, Rdio também, mas Spotify destruiu todos”. Spotify tinha 64,1% do mercado mexicano de streaming em 2016, muito a frente da Google, com 12.3%, e da Apple com 8.1%, segundo a Competitive Intelligence Unit.

Mia Nygren mudou-se em 2014 da matriz do Spotify em Estocolmo para São Paulo. “Me pareceu que tudo aqui era um tipo de preparação para as coisas funcionarem”, diz a sueca. “As pessoas conheciam. Foi uma mensagem fácil”. Enquanto os CDs eram restritos por geografia – tinham que ser prensados e distribuídos nas lojas físicas e virtuais – qualquer um com um plano de dados pode participar na indústria de música mundial. Só de absorver o grupo inicial de pessoas em países populosos como Brasil e México, com boa renda, com cartão de crédito e que já tinha ouvido falar do Spotify, foi suficiente para gerar uma base de usuários comparável com a de países pequenos da Europa. A Cidade do México cresceu a ponto de ser a maior base de ouvintes do Spotify, a frente de Nova York e Londres. Para algumas grandes estrelas do Ocidente como Adele e Radiohead, a Cidade do Mexico é seu mercado número 1 no Spotify.

O departamento de marketing da Spotify categoriza pessoas em categorias com nomes de jargões da indústria, como “usuários top”, “primeiros a adotarem”, “atrasados”, “oportunistas”. Para países como México, eles conquistaram dezenas de milhões de “primeiros a adotarem”, sem gastarem muito dinheiro para isso. Somente 90 funcionários Spotify entre 3.500 trabalham na divisão da América Latina, embora a região responda por um quinto de sua base de clientes. Spotify está considerando  aportar mais peso e dinheiro nessa empreitada. Numa recente apresentação interna sobre a América Latina, uma seção foi dedicada à questão: construímos um castelo, precisamos de um fosso? “Netflix e Spotify encaram um desafio de globalização similar, mas é muito mais barato e rápido criar uma playlist do que roteiros de séries dramáticas”, diz Mulligan.  “Você pode programar playlists para o Brasil facilmente, com um time de especialistas que entendam de  Brasil, em qualquer lugar do mundo”.

A pergunta de US 20 bilhões – atual valor de mercado da Spotify – é se isto pode ser reproduzido no “Resto do Mundo”. Spotify argumenta que sim. Países como África do Sul, indonésia e Coreia do Sul também tem consumidores jovens espertos ansiosos pelo Spotify. As marés da mídia e da cultura pop são lentas mas claramente vão na direção do Leste. Em novembro, o canal mais popular do Youtube foi o selo indiano T-Series.  Netflix lançou uma série “noir” de televisão em Mombai e o CEO Reed Hasting  diz que os próximos 100 milhões de assinantes virão da Índia. A Universal Music, a maior gravadora do mundo, lar de Taylor Swift e Drake, fez um forte movimento em Novembro na direção da África. Há desafios locais que tornaram a Índia um mercado difícil para as companhias do leste, de Amazon a Walmart. Na Índia, Spotify competiria com Apple, Amazon e Youtube. Além de empresas locais como Hungama, Gaana e Saavn. Nenhum desses serviços teve sucesso em convencer as pessoas a pagarem uma taxa para ouvir música na Índia. Embora 216 milhões de pessoas estivessem usando serviços de streaming no país ao final de 2017, somente 1milhão pagava por eles, de acordo com Midia.

Por outro lado, Spotify dispõe de uma infraestrutura questionável ,  enfrenta pirataria desenfreada e rivais poderosos como Anghami no Oriente Médio. Há previsões de surgimento de estratégias de negociação na Índia. As negociações de licenciamento do Spotify chegaram a um impasse pelo fato das grandes gravadoras voltaram atrás quanto ao pedido da Spotify para oferecer uso gratuito por alguns meses no país, de acordo com pessoas envolvidas nas conversas. Na China, Spotify ano passado trocou participações acionárias com a Tencent Music para ganhar uma posição no mercado de rápido crescimento.  Os riscos para   Spotify são altos. Se Ek acertar, o serviço poderá ganhar centenas de milhões de novos clientes. Se falhar, seu oponente com base em Cupertino já está presente em mais de cem países e estará atento para aumentar a influência do iPhone. Aparentemente a Apple percebeu o boom da música latina – em Outubro lançou uma playlist latina, !Dale Play!, no seu serviço de streaming. Spotify continuará mapeando a cultura da música enquanto tenta ganhar assinantes. A influência cultural dá ao Spotify a capacidade de criar estrelas por si só. Alguns anos atrás, Danny Ocean teria uma chance em um milhão. Inigo Zabala, CEO da Warner Music América Latina que o contratou, esbarrou nele antes de ser popular enquanto navegava pelo Spotify. Ele abriu o Youtube em seu computador no escritório de Miami para confirmar um veredito de “Me Rehúso” e viu mais de 1.2 Bilhões de views. “A música latina sempre esteve por aí, mas agora o mundo do streaming tornou-a global”, diz Zabala. “A cada dois anos, tínhamos um hit latino.  Do Buena Vista Social Club ao Gypsy Kings, de  Macarena a Ricky Martin.  Mas eles eram completamente randômicos”, ele diz. “ Agora, estamos pensando em hits globais e eles não são randômicos. Eles fazem parte do plano”.

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